Somos um grupo de bons rapazes que começamos por nos conhecer em 1995, a maior parte, na casa mãe de todos os Paraquedistas Militares em Tancos.
Em 1999, devido aos anos que estivemos juntos pela mesma causa, começou a nossa grande amizade que permanece até hoje, levando-nos a que todos tenhamos que estar pelo menos uma vez juntos por ano, uma espécie de cisma perseverante e que este ano nos levou a mais um Convívio do 184.º Curso de Paraquedismo.
Não estando todos ainda contactáveis, não perdemos a esperança de um dia de podermos estar todos juntos. Por isso este blog vai-nos ajudar com certeza na concretização desse objectivo. Assim sendo, vou começar a minha história que me uniu a estes grandes camaradas que são os do 184.º Curso de Paraquedismo.
Tudo começou quando chegou uma carta a casa, meu Pai disse logo:
- Filho, vais á inspecção!
E eu disse-lhe: à inspecção? O que é isso?
Tendo ele respondido: para a tropa rapaz, agora é vais dar homem, hehehe!
No outro dia, quem encontrava, dava logo a notícia que ia para a tropa. E todos eram unânimes, “AGORA É QUE VAIS DAR HOMEM, até lá não”; Somos uns putos, mas mal recebemos a carta somos logo homens, eheheh.
Inspecção.
Na inspecção perguntam, para onde queres ir? Para aqui, para ali… Cada um é livre de escolher, alguns dizem que não, mas a mim pareceu-me que sim, eu escolhi para onde quis, tendo naturalmente a altura mínima exigida, embora tendo que fazer uns testes de aptidão.
Chegando a casa, o meu pai perguntou-me:
- Então rapaz para onde vais?
Eu respondi:- Vou para os PARAQUEDISTAS.
“É assim mesmo, este é meu filho”- diz o meu pai que serviu na 34.ª Companhia de Comandos no Ultramar. O mesmo não posso dizer da minha mãe que logo se manifestou dizendo que eu era doido como o meu pai, mas sem dúvida que não me faltou apoio da parte dela.
Testes Paraquedistas:
Seguiram-se os testes para se ser PARAQUEDISTA. Ali se viu que não era para todos, apesar de se estar em boa forma física, a força mental era a mais importante, sem dúvida! ; e dou aqui um exemplo, que nunca me irei esquecer: de alguns camaradas que não conseguiram transpor um muro de 90 cm de altura, sendo eliminados logo de seguida. Chegando à camarata onde pernoitamos, um Soldado PARAQUEDISTA que nos acompanhava nos testes, virou-se para nós e perguntou quem tinha sido eliminado no salto do muro, e os camaradas chegaram-se a frente. De imediato o PARAQUEDISTA pegou num colchão colocou-o ao alto e mandou-os saltar o colchão. Na minha memória ficou camarada com bom porte que vestia calças de ganga, casaco de cabedal e de texanas, dá 2 passos e saltou sem problemas, fiquei boquiaberto e mais tarde compreendi que realmente não podemos ser todos doutores, porque em algumas ocasiões seremos diferentes.
Passei nos testes, sim senhor!... E agora SIM, podia dizer que iria para os PARAQUEDISTAS!
E lá fui eu com uma rapadela a pente zero, heheheh, mas para a recruta, pois ainda faltava muito para ser apelidado de PARAQUEDISTA.
Recruta:
Cheguei à Escola a um Sábado de manhã, onde já estavam a nossa espera para a boa recepção que sempre é dada a quem lá passa… Vocês sabem do que estou a falar ;-)
Desci do autocarro de boné com o sorriso nos lábios a olhar para a minha futura casa e de repente ouço,
- Tira o boné ó animal!
- Eu, estúpido da vida com a falta de nível daquele militar que mais tarde vim a saber que era um furriel, viro-me para trás e digo;
- Animal...!?
- E ele em tom alto e bom som, com a boca dele nos meus ouvidos:
- Sim, Animal!
- Que se passa, disse eu eu.
Eu digo-te o que se passa!... Disse o Militar, o que se passa é que a partir deste momento, esquece a vida civil, pois agora estás na vida militar! E mais... vais já para o barbeiro cortar esse cabelo!
- Quem? Eu?, exclamei! disse eu espantado!
Cortei-o ontem à máquina zero e ainda tenho que o cortar mais… Percebi que realmente tinha entrado numa aventura que não sei se estava preparado para ela... havia sempre a possibilidade de desistir, pois era voluntário.
Lá fui eu para o barbeiro, cheguei ao barbeiro, era um civil, mas a panca era a mesma, e o gajo ia-me espancando (literalmente falando)… ele perguntou se eu o estava a gozar, porque não tinha cabelo para cortar, e eu sem saber o que fazer, saí dali, se não ainda levava uma navalhada!!!
Enfim e isto foram só as primeiras horas como recruta. Durante a recruta houve bons e maus momentos, aquela frase que andava sempre a ouvir dos mosqueteiros “um por todos e todos por um” afinal entendi realmente o que ela valia, pois pagávamos todos pelas falhas de cada um.
Aí se começa a ganhar o grande ESPÍRITO que impera nas TROPAS PARAQUEDISTAS.
No dia a dia da recruta alguns camaradas iam sendo eliminados, uns porque se aleijavam, outros porque não conseguiam aguentar o ritmo da instrução. Quase no final da recruta lá aparece a famosa semana de campo de que todos falavam. Foi uma semana longa, longa, longa, longa e longa... Contado ninguém acredita (para variar), por isso não vou falar dela, porque é para esqueçer...
Acabei a recruta, e alguns camaradas com muita pena minha, ficaram pelo caminho por diversas razões.
Juramento de bandeira com os meus Pais lá a ver-me, e não estejam a pensar que eles estavam a dizer “olha o meu filho é o único que vai bem”, nada disso, eu portei-me bem, eheheh. Para a minha mãe foi um alívio eu ter acabado a recruta, pois quando chegava a casa ao fim de semana e abria o saco, ela até se benzia com o estado e o cheiro da roupa.
Ela perguntava: "- O que é que fazeis lá?" E eu respondia-lhe: "- Nada mãe, nada...", não são coisas que se deva contar às mães, certo?”.
Curso de Paraquedismo:
Acabava-se o massacre psicológico e entrava-se no massacre físico.”Um bom prato para emagrecer”, sem dúvida, coça de manhã e à tarde. Pelo menos, acabavam os saltos para as poças de água, para as silvas, as instruções nocturnas, etc… Entravamos realmente noutra era…Era mais estimulante, pois estávamos a um passo de conseguir os nossos objectivos. Estando na semana de saltos, não sei se estava preparado psicologicamente para saltar ou me atirar de avião.
SALTEI!!!!
Único!!! Fantástico, sem dúvida a melhor sensação de adrenalina que já tive! Chegou ao dia do último salto e durante o salto vinha a pensar por tudo o que passei, se tinha valido realmente a pena. Com certeza que sim! Por milhentas razões!... Sem dúvida, que depois disto tudo, comecei a olhar a vida de maneira diferente, bem ou mal, modificou a minha maneira de ser e de pensar, e foram só dois meses e meio… Pois tinha sido uma luta muito grande a que me propus e não me podia desiludir. Um dos momentos mais esperados, estava a prestes a ser concretizado. Não digo que era um sonho meu de pequenino, mas já a minha avó me dizia quando era miúdo “ andavas sempre com sacas de plástico amarradas aos braços e a saltar de varandas”, eheheh.
Um dos momentos mais marcantes que tive, foi quando recebi a BOINA VERDE e o BREVET. Foi um dos momentos mais marcantes que tive. Tremia que nem varas verdes…, Vá-se lá saber porquê! BOINA VERDE E BREVET aí vai ele!
Boina Verde.
Chegando à Escola, a primeira coisa que fiz foi saltar para cima do passeio que até lá eram só para os Deuses e eles usavam BOINA VERDE. Agora, podia pisar e andar nele. Entretanto, um 1.º Sargento que ia a passar por mim e viu-me exuberante a pisar o passeio, parou e disse-me, “ó nosso PARA, o mais difícil não é conseguir a BOINA, é mantê-la”. É com estas dicas que nos ajudam a crescer e a mudar, porque a vida custa a todos. Fazer muito ou pouco depende de como somos habituados. Vi logo que ainda não era ali que ia ter os louros apesar de ter conseguido um objectivo. Ao fim do Curso, fui destacado para São Jacinto e outros camaradas para diversas unidades, o que me separou de alguns camaradas. Só nos víamos em saltos ou exercícios e alguns acabei por os encontrar a 2500 kilometros de Portugal.
Bósnia 1996.
Foi bom rever alguns camaradas de recruta e curso. Alguns não tiveram oportunidade de ir e ficaram por cá, saindo da tropa mais cedo, enquanto que o meu contrato entrou em vigor, estava eu na Bósnia, sendo o primeiro contrato de 2 anos, por isso só sairia em 1998, e assim foi.
CHECARIA, OLHA A PELUDA!
Saí em 1998, sabendo que o meu Curso já tinha feito uns convívios entre eles, organizado pela malta de Guimarães que eram em maior número no nosso curso. Contactando alguns camaradas, contacto puxa contacto e aqui estamos no VIII Convívio. FANTÁSTICO.!! Não é!Acabando aqui a minha história e olhando para trás só me posso orgulhar de ter camaradas como estes que são do 184.º CURSO DE PARAQUEDISMO. Esperançado que vão surgir muitas mais HISTÓRIAS da parte dos meus camaradas e quiçá de camaradas que estiveram connosco…Assim me despeço, com um enorme abraço a todos os BOINAS VERDES.
QUE NUNCA POR VENCIDOS SE CONHEÇAM
ALMEIDA
Sold/Paraq - 369 910 93
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